Imagine a situação: Você já observou o que acontece quando vamos ao cinema e nosso coração está triste, angustiado ou coisa parecida e a personagem do filme, coincidentemente, experimenta o mesmo sentimento e o supera ao longo do filme?
Não sentiu um gostinho de vingança contra o sentimento indesejável que estava te chateando?
Entendo que o mesmo acontece com o cara que se senta na frente da televisão para ver o jogo de futebol. Se o time dele vence, sai fortalecido em sua auto-estima.
Outro exemplo é o da mulher que acompanha a novela das seis, das sete, das oito... No final, sempre é possível suspirar alegremente e dizer: a felicidade dela me ajuda a suportar minha infelicidade.
Discordem os que puderem, mas creio nisso. Percebo isso em minha vida também. Como é gostoso o prazer que tenho ao ver aquele filme em que há um homem de caráter nobre, que não se vende, que resisti às tentações, que se supera. Sempre gostei desse tipo de filme. Pensava que o que ocorria comigo era bom, ou apenas bom. Imaginava meus propósitos de nobreza renovados por cada enredo assistido.
Faz algum tempo que ando inquieto comigo, pois os heróis do cinema continuam a surgir, mas eu não apareço em minha vida como protagonista, como o herói que se supera. Os heróis de lá me levam a experimentar um prazer que me permite ficar mais um pouco na zona de conforto. Depois de enxergar isso, maior angustia é o deparar-me com minha incompetência para articular minha própria vida.
Vejo-me no esforço da lagarta, que deseja mudar-se em borboleta, mas não tem força para quebrar o seu próprio casulo.
Esta é minha angustia atual, suficiente angustia.